Os efeitos do Coronavírus e as perspectivas que começam a ser esboçadas

Muitos analistas e institutos publicaram suas visões e expectativas para os impactos econômicos da nova crise



Mais intensa do que uma recessão (tecnicamente descrita como crescimento negativo por dois ou mais trimestres seguidos), a crise pode nos levar a uma depressão econômica, com forte impacto negativo no emprego, produção industrial, rendimento real e entre outros. Devastador, veloz e sem precedentes, o Coronavírus certamente entrará para os livros de história econômica como uma das mais duras crises já vividas na era contemporânea, pois, de acordo com os pesquisadores da Oxford Economics, o PIB global registrará queda de 2,8% anual em 2020, superando o custo do colapso financeiro de 2009. Apesar de acreditar numa queda de 7% no produto nestes primeiros seis meses (o dobro da queda durante a crise da bolha imobiliária americana), segundo o instituto, há uma perspectiva de melhora e retomada no segundo semestre de maneira acentuada. A título de comparação, em 2009, a queda global foi 1,1% aa.


Diante deste contexto de impacto globalizado, muitos estudos sobre renda básica estão ganhando audiência no mundo. Quem trouxe esta discussão foi o Fórum Econômico Mundial. É interessante notar que o argumento dele se baseia na crítica de que a economia beneficiava desproporcionalmente o rentista, investidor e proprietário de terras em detrimento da economia de livre mercado – claramente visível no Brasil até 2016 – uma vez que a renda flui para os proprietários de ativos físicos, financeiros e intelectuais. Como efeito, é destaque na publicação a redução da participação do trabalho do PIB global, com boa parcela da população sobrevivendo a partir da insustentável alavancagem por dívidas.


Num cenário pessimista, considerando a possibilidade de uma piora no quadro, assistiremos pessoas incapazes de pagar suas dívidas, o que pode resultar em falta de moradia em massa, doenças sociais e aumento da violência, enquanto inúmeras empresas micro e pequenas poderão sofrer com a insolvência. O alento vem do surgimento de medidas monetárias inéditas e da criação de instrumentos que focam no social. Mas aonde estaria o perigo? No pós-crise. No afrouxamento monetário (expansão do crédito) somado à austeridade fiscal com cortes nos gastos sociais públicos, os quais podem comprometer a recuperação da pandemia e provocar a intensificação dos níveis de pobreza, tendo sido este o maior choque de demanda já vivenciado na história moderna, conforme destacou o Fórum Econômico Mundial. E mais, de acordo com a unidade de inteligência da Economist, é improvável que a demanda do consumidor volte ao nível pré-crise quando o distanciamento social for suspenso e as empresas puderem reabrir.


Só para destacar alguns dados, antes da pandemia, a dívida privada americana superava 150% do PIB e a corporativa atingia cerca de 73% (a dívida pública do Brasil alcançava cerca de 76% do PIB). Além disso, no caso americano, boa parte das grandes empresas está vinculada às cadeias de suprimento mundial, extremamente prejudicadas com a interrupção do fluxo de comércio, mostrando sua fragilidade. No caso brasileiro, apesar das inúmeras desvantagens, pelo menos dessa vez foi bom não estar tão inserido nesta rede. Diante deste cenário, equacionar todos os riscos é tarefa difícil, mas extremamente necessária, pois há ameaça iminente de uma crise emergir decorrente do elevado endividamento dos países com situações fiscais débeis, sendo relevante o efeito de contágio, principalmente entre os países desenvolvidos e emergentes.


Para tanto, os estudiosos da organização entendem que a renda básica se tornaria protagonista neste contexto, encontrando defensores dos mais variados espectros políticos, a qual se configura no pagamento de uma quantia modesta a indivíduos (e não a famílias), preservando o caráter restrito de cada membro, inclusive sob a ótica de gênero. Por não se tratar de um capital fixo, ela dirime o impulso de gastar tudo de uma só vez e da exposição à vulnerabilidade futura, induzindo a melhorias graduais de comportamento, de acordo com a pesquisa. A ideia é, portanto, oferecer um mínimo de segurança para os recursos de subsistência durante um período de real necessidade.

Entendo que há uma diferença dos programas de assistência, como o Bolsa Família. O primeiro ponto é que não há direcionamento por classe social, pois todos aqueles com custos extras de vida e capacidade de ganho diminuído, como portadores de necessidades especiais, por exemplo, receberiam suplementos para que alcançassem uma renda básica equiparada aos demais. O segundo ponto é que ele está vinculado a um momento específico e duração prevista, o qual colabora também para a estabilização emocional e psicológica dos mais vulneráveis. Este instrumento seria então uma espécie de estabilizador macroeconômico automático, cujo valor poderia ser reajustado conforme recuperação ou aprofundamento do quadro econômico. Estamos assistindo o governo brasileiro experimentar instrumento similar com o auxílio emergencial.


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Fontes:

https://resources.oxfordeconomics.com/hubfs/WEP/WEPM%20April%202020%20pdf.pdf

https://www.weforum.org/agenda/2020/04/coronavirus-made-basic-income-vital/

https://www.bbc.com/news/business-52306001


Elinne Val é economista/UnB, pesquisadora e mestranda em Economia/Unifal-MG e planejadora financeira.

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