Aumento nos preços de transportes e alimentos puxam inflação no mês

Apesar da inflação registrar o menor patamar dos últimos vinte anos, o preço dos alimentos preocupa principalmente os mais pobres


A inflação oficial brasileira, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), ficou em 0,24% no mês de agosto, abaixo de julho em 0,08pp e acima de agosto de 2019 0,13pp, segundo a publicação do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), puxada pelos preços dos alimentos e do transporte. O resultado ficou ligeiramente acima da expectativa do Consensus de 0,23% mensal. O índice acumulado em 12 meses ficou em 2,44%, acima dos 2,31% registrados nos 12 meses imediatamente anteriores. Para o mês, a variação foi a maior desde 2016 (0,44%). A meta central da inflação deste ano é de 4%, e o intervalo de tolerância do sistema de metas 1,5% para baixo ou para cima.


Elaboração Finaplus; Dados IBGE.


Entre os nove grupos observados, transportes (0,82% mensal; responsável por 0,16 p.p. do índice) foi o que mais pressionou a inflação no mês, registrando alta pelo terceiro mês consecutivo, em decorrência do aumento nos preços da gasolina de 3,22% no mês. A segunda maior contribuição veio do grupo Alimentos e Bebidas, que registrou crescimento de 0,78% m/m, tendo sido impulsionado pelos alimentos para consumo em domicílio (alta de 1,15% m/m), influenciado principalmente pela elevação nos preços do tomate (cerca de 13% m/m), do leite longa vida (quase 5% m/m) e frutas e carnes, as duas com aumento de aproximadamente 3,3% no mês.


Sobre o aumento do arroz no mês, houve incremento de 3% nos preços em agosto, acumulando 19,25% de subida desde o início do ano. Tão relevante ou mais foi o aumento do feijão, cujo tipo fradinho já registra aumento de 35% em 2020. Para o Instituto Fiscal Independente, a pressão sobre os preços desses bens comercializáveis é explicada, em parte, pelo efeito do câmbio e das commodities agrícolas.


Vale destacar que, de acordo com as informações do IPEA, a inflação dos mais pobres foi o dobro em relação a dos mais ricos, quando se considera a variação dos preços acumulada nos últimos doze meses, pois a cesta desta faixa de renda é muito influenciada pelas alterações provocadas por alimentos e bebidas. O instituto considera a renda domiciliar mensal menor que R$ 1.650,00 para a camada menos favorecida e, para o segmento mais rico da população, rendimentos domiciliares superiores a R$ 16.509,66. Para este perfil, o impacto do reajuste dos alimentos em agosto foi de 0,05 ponto percentual na sua cesta de consumo, enquanto que entre as famílias pobres o impacto foi de 0,20 pp.


Quanto à inflação de bens e serviços monitorados (isto é, cujos preços são definidos em contrato ou pelo governo, como planos de saúde, energia, gás, comunicação e transporte), houve aceleração de 0,78% em agosto, enquanto que dos itens livres (aqueles cujos preços se movem de acordo com a oferta e a demanda) – tal como os alimentos e bebidas, somente de 0,05%. Este resultado mostra que apesar dos brasileiros estarem sentindo o peso no bolso em decorrência de alguns dos itens atingidos pela subida de preços, a inflação ainda não demonstra sinais de descontrole, com perspectivas ainda muito baixas para o ano. A recuperação muito lenta da economia e o avanço na ocupação via informalidade no mercado de trabalho explicam o crescimento modesto na inflação, pois as pessoas têm cautela na hora de consumir.


Informações do IBGE, IPEA e IFI.

Elinne Val é economista e planejadora financeira pessoal da Finaplus.

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